domingo, 12 de maio de 2013

Fragmento

"Cí só encontrou uma resposta. 
- Porque este é o meu sonho.
O velho abanou a cabeça.
- Só por isso? Houve um homem que sonhou voar pelos céus mas, depois de se atirar de um precipício, só conseguiu partir os ossos contra as rochas...
Cí contemplou as íris mortiças do ancião. Desceu do estrado e aproximou-se do homem de olhar vazio. 
- Quando desejamos alguma coisa que vimos, só temos de esticar o braço. Quando o que desejamos é um sonho, temos de esticar o nosso coração.
- Tens a certeza? Às vezes os sonhos conduzem ao fracasso...
- Talvez. Mas se os nossos antepassados não tivessem sonhado um mundo melhor para nós, ainda nos vestiríamos com farrapos. O meu pai disse-me uma vez - e a voz tremeu-lhe ao dizê-lo - que, se me empenhasse em edificar um palácio no ar, não perderia o tempo. Que era com certeza aí que deveria estar. Devia apenas esforçar-me o suficiente para construir os alicerces que o sustivessem." 

in O Leitor de Cadáveres, Antonio Garrido, pag. 229

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