quarta-feira, 29 de maio de 2013

Mariana



Autor: Susanna Kearsley
Edição: 2013, fevereiro
Páginas: 352
ISBN: 9789892321684
Editora: ASA

Sinopse:
Ela tinha apenas cinco anos quando viu Greywethers pela primeira vez, mas soube de imediato que aquela era a sua casa. Vinte e cinco anos depois, tornou-se finalmente sua proprietária. Mas Julia depressa começa a suspeitar de que existe algo de poderoso e inexplicável por detrás da sua decisão radical de abandonar Londres e começar de novo numa pequena aldeia.

Os novos vizinhos são calorosos e acolhedores, muito particularmente Geoff, o aristocrático proprietário de Crofton Hall, com quem sente uma ligação imediata. Mas a vida tal como ela a conhecia acabou, e outra bem diferente está prestes a começar. Uma vida que inclui Mariana, que habitou aquela mesma casa trezentos anos antes e cujo destino ficou tragicamente por cumprir.
A história de Mariana vai-se revelando a pouco e pouco, apoderando-se da sua vida como um feitiço. Ao longo dos séculos que separam as duas jovens, uma promessa de amor eterno aguarda o desfecho que o destino lhe negou. Conseguirá Julia desvendar no presente os enigmas do passado? Será que Mariana esteve sempre à sua espera?

A minha opinião:
Romance histórico. Passado e presente enredados numa história arrebatadora e misteriosa.

Depois de ler O segredo de Sophia, este romance com uma Mariana na capa serena e contemplativa, era certamente uma boa leitura. Em tudo semelhante ao anterior, com duas histórias paralelas que enredam a mesma protagonista, que na atualidade é Julia, mas que nas viagem regressivas, três séculos antes se revê como Mariana. Apesar de complexo, a autora consegue que seja muito simples, e sem confundir o leitor, que fica cativo e envolvido na trama virada para desvendar os vários enigmas que se vão deparando, assim como dar atenção ao romance que vai despontando.

Personagens carismáticas e bem definidas em ambas as épocas. Protagonistas corajosas e aventureiras numa narrativa fluída, contada com mestria e que surpreende o leitor nas várias peripécias e no desfecho. Um ciclo que se fecha com um destino cumprido e um apelo inexplicável para uma casa e um passado esquecido.

Um prazer de ler!

sábado, 25 de maio de 2013

Dois Anos e Uma Eternidade


Autor: Karen Kingsbury
Edição: 2013, fevereiro
Páginas: 224
ISBN: 9789898626066
Editora: Topseller

Sinopse:
Molly Allen vive sozinha em Portland. Na memória guarda os momentos felizes que viveu na livraria A Ponte, com um homem que deixou para trás cinco anos antes. O amor que os uniu era de uma espécie rara, arrebatadora, que ela não voltou a encontrar desde então.
Ryan Kelly é músico e vive em Nashville. Depois de um noivado falhado e de vários anos em digressão, também ele tem dificuldade em reencontrar a felicidade.

Por vezes, quando se sente mais solitário, regressa à livraria e recorda as horas que partilhou secretamente com Molly.
Charlie e Donna Barton são os donos da livraria A ponte - a mais antiga livraria no centro histórico de Franklin. Durante quatro décadas partilharam com os clientes o amor pela leitura. Mas quando a cidade é atingida pelas cheias, Charlie entra em desespero. Sente-se prestes a perder as duas paixões da sua vida: a livraria, que construiu e acarinhou ao longo dos anos, e a mulher, Donna, que não mais conseguirá sustentar. Quando a tragédia acontece, leva a um reencontro inesperado entre Molly e Ryan.

A minha opinião:
"Dois Anos e Uma Eternidade... Como Uma Livraria Mudou Tudo". Este seria o título completo e talvez mais adequado para este romance solidário e comovente.

Linguagem corrente e fluída, este romance simples lê-se num ápice e com uma lágrima ao canto do olho. Profundamente crentes as personagens vão superando obstáculos contrários ao bater do seu coração e batalhando por realizar os seus sonhos. Quando tudo parece perdido, o milagre acontece. E a "Ponte", a livraria que tanto fez por todos os que procuraram uma palavra de coragem, de afeto ou conforto voltou a servir de elo de ligação 

Um romance terno para ler em momentos de agruras ou desânimo e reverter o quadro. Retomar a confiança no futuro por mais incerto e negro que pareça e crer no ser humano e naquela força superior que nos acompanha quando temos fé. 

Um maravilhoso acreditar em Segundas Oportunidades. Dois casais unidos por amor verdadeiro. Um romance leve e agradável que nos predispõe bem e nos faz esquecer tudo o resto por pouco tempo. O tempo de uma breve leitura mas que com convicção talvez deixe uma marca indelével em todos os que o lerem.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Aconteceu em Roma

Autor: Nicky Pellegrino
Edição: 2013, maio
Páginas: 288
ISBN: 9789892323381
Editora: ASA

Sinopse:
Românticas ruelas de calçada, piazzas repletas de vida, cafés e bares vibrantes de música e desejo...  Não há no mundo cidade como Roma. É aqui que Serafina vive rodeada pelo carinho da mãe e das duas irmãs. Habitam um minúsculo apartamento delapidado e têm pouco ou nenhum dinheiro, mas a alegria está sempre presente.

Quando a mãe sai, sempre bela no seu vestido simples e feito em casa, as irmãs vão cantar para a rua. É um atrevimento que as diverte e lhes permite obter dinheiro para fazerem o que mais gostam: ir ao cinema. Elas suspiram e sonham com as estrelas das matinés. Mas Serafina nunca imaginou conhecer pessoalmente o seu ídolo: o ator e cantor Mario Lanza.Quando as portas da magnífica Villa Badoglio - lar da família Lanza - se abrem para a acolher, a jovem é apresentada a um mundo de sonho. E é rodeada pelo luxo e o glamour que conhece Pepe, o talentoso chef capaz das mais suculentas iguarias e das mais ternurentas emoções. Serafina está apaixonada e a viver dias dourados mas não consegue evitar sentir que aquele não é o seu mundo.
Dividida entre a vida modesta que conhece e a promessa de um futuro melhor, Serafina vai ser obrigada a crescer. Vai sofrer, amar e descobrir que a realidade nunca é apenas o que parece. Que a vida é simultaneamente mais difícil e mais bela do que um sonho.

A minha opinião:
Nicky Pellegrino é uma autora que normalmente não deixo passar sem ler devido à sua escrita fácil e fluída, com descrições maravilhosas de cantos e recantos tão pitorescos como desejáveis de visitar ou revisitar, e referências à apetitosa gastronomia italiana que me deixa com água na boca. 
Mais um vez me deslumbrou essa caraterística neste romance. 

Mas, desta vez, foi diferente. A narrativa foi mais longa... mais contida e menos envolvente. Talvez se deva à principal personagem que ficou aquém do que esperava. Mais banal e menos determinada. Mais passiva. Menos carismática. Talvez até insípida. 

Para fugir a um futuro como o da mãe e para ajudar a irmã a realizar o sonho de cantar, aproxima-se da família de Mário Lanza e torna-se assistente e amiga de Beth, a sofrida mulher do idolatrado cantor, e conhece assim intimamente a vida abastada e desgraçada desta família. E muito pouco mais há para contar sobre esta narrativa que se arrasta até à prematura morte do cantor. 

Um livro que desiludiu, ao contrário de outros que tanto me prenderam por bons momentos de leitura.

sábado, 18 de maio de 2013

Debaixo de algum céu

Autor: Nuno Camarneiro

Edição: 2013, Março
Páginas: 200
ISBN: 9789896602390
Editora: Leya

Sinopse:
Vencedor do Prémio LeYa 2012

Num prédio encostado à praia, homens, mulheres e crianças – vizinhos que se cruzam mas se desconhecem – andam à procura do que lhes falta: um pouco de paz, de música, de calor, de um deus que lhes sirva. Todas as janelas estão viradas para dentro e até o vento parece soprar em quem lá vive.

Há uma viúva sozinha com um gato, um homem que se esconde a inventar futuros, o bebé que testa os pais desavindos, o reformado que constrói loucuras na cave, uma família quase quase normal, um padre com uma doença de fé, o apartamento vazio cheio dos que o deixaram. O elevador sobe cansado, a menina chora e os canos estrebucham. É esse o som dos dias, porque não há maneira de o medo se fazer ouvir.
A semana em que decorre esta história é bruscamente interrompida por uma tempestade que deixa o prédio sem luz e suspende as vidas das personagens – como uma bolha no tempo que permite pensar, rever o passado, perdoar, reagir, ser também mais vizinho. Entre o fim de um ano e o começo de outro, tudo pode realmente acontecer - e, pelo meio, nasce Cristo e salva-se um homem.
Embora numa cidade de província, e à beira-mar, este prédio fica mesmo ao virar da esquina, talvez o habitemos e não o saibamos.
Com imagens de extraordinário fulgor a que o autor nos habituou com o seu anterior romance, Debaixo de Algum Céu - obra vencedora do Prémio LeYa em 2012 - retrata de forma límpida e comovente o purgatório que é a vida dos homens e a busca que cada um empreende pela redenção.

A minha opinião:
Para quem já leu alguns dos meus comentários sabe que fico reticente em ler autores portugueses. Não porque prefira romances leves e simpáticos em que tudo é cor-de-rosa (cor que nem aprecio) e todos acabam felizes e contentes numa irreal fição, mas porque gosto do possivelmente credível e coerente, com uma mistura de tudo, alegrias e tristezas, animo e dor, sucesso e perdição. Como a vida. 
Este romance maravilhoso que li e reli devido a uma escrita cuidada e fluída, que de tão bela nos impõe um olhar mais atento sobre as palavras e o seu sentido, deixou-me com uma sensação agridoce. Desencanto, desalento e solidão são reais e difíceis de ler porque encontram eco em muitas corações. Senão sempre mas em alguns momentos que parecem sempre demasiado  longos. O fado, que é tão bem português.
Citando:
"As palavras são difíceis mas são o que temos. O sofrimento é único para cada homem e para cada mulher, são infinitas as dores e poucas as palavras que lhes dão nome: desgosto, arrependimento, comiseração, tristeza, pesar, mágoa, pena, lástima, aflição, angústia, , nojo, desolação, comoção, choque, amargor. Faltam termos e sobram as horas más. Não falta descrever o que se pensa, porque não importa, o sofrimento corre abaixo da cabeça, no corpo que apanha, às voltas num mesmo lugar, como se chama o centro exacto de nós?"                                                        (pag. 73)
 
A sinopse é elucidativa, mas mais do que isso temos o prólogo do autor que assim começa:

"Uma história são pessoas num lugar por algum tempo. As margens da página, como o silêncio, estabelecem limites certos para que um conto não se confunda com o que não lhe pertence. Pode contar-se uma história enchendo uma caixa vazia ou desenhando paredes à volta de gente. 
Esta é uma história de portas adentro." 

Uma narrativa extraordinária mas um tanto amarga ou pragmática. Um talento inquestionável com as palavras que tão bem expressam emoções e sentimentos. Um compreensível vencedor do prémio Leya.

Recomendadissímo por quem cada vez duvida menos de que devemos ler autores portugueses e que os devemos ler baixinho  ou em voz alta para melhor interiorizarmos as suas palavras.

"O amor não é fácil em nenhuma idade e doí tanto ceder-lhe como fugir-lhe. Mas o amor é o que há, e eu estou velho para morrer sozinho."                                                                   (pag. 199)

quarta-feira, 15 de maio de 2013

A estalagem de Rose Harbor

Autor: Debbie Macomber
Edição: 2013, Abril
Páginas: 304
ISBN:  978-972-23-5039-6
Editora: Editoral Presença

Sinopse:
 Depois da morte do marido no Afeganistão, Jo Marie Rose procura refúgio em Cedar Cove, uma pequena cidade acolhedora à beira-mar. Decide comprar uma estalagem com uma vista encantadora e repousante e aí iniciar uma nova vida, repleta de paz. Mas esta nova vida reserva-lhe mais surpresas e agitação do que esperava, com a chegada dos seus primeiros hóspedes, Joshua Weaver e Abby Kincaid. Ambos oriundos de Cedar Cove, mas afastados há muitos anos por diferentes motivos, vão encontrar na Estalagem de Rose Harbor um porto seguro, onde conseguirão enfrentar o passado, sarar as feridas e reconciliar-se com os próprios medos, revoltas e desilusões.

A minha opinião:
Gosto de pequenos livros ternos e suaves. Livros positivos que nos confortam. E a Presença é uma das editoras que regularmente nos dá esses mimos.

Neste romance os protagonistas são três. E a ação situa-se em Seattle, Cedar Cove,  na estalagem de Rose Harbor, onde todos chegam carregando fardos. Uns maiores do que outros e uns habituados a lidar de tal modo com o peso extra que nem se pareciam dar conta do impacto nas suas vidas. Mas este é um lugar especial para sarar feridas do passado. Neste lugar, os dois hóspedes, enfrentam os seus medos e conflitos e encontram paz. Mas para tal, temos que ler toda a estória para saber o que lhes acontecera antes e o que decorrerá entretanto, até que tudo fique sanado.

Narrativa singela e segura que nos permite acreditar em magia e na possibilidade de voltar a ser feliz.
Um romance que nos reconforta e deixa satisfeitas.

Um doce prazer de ler!

domingo, 12 de maio de 2013

Fragmento

"Cí só encontrou uma resposta. 
- Porque este é o meu sonho.
O velho abanou a cabeça.
- Só por isso? Houve um homem que sonhou voar pelos céus mas, depois de se atirar de um precipício, só conseguiu partir os ossos contra as rochas...
Cí contemplou as íris mortiças do ancião. Desceu do estrado e aproximou-se do homem de olhar vazio. 
- Quando desejamos alguma coisa que vimos, só temos de esticar o braço. Quando o que desejamos é um sonho, temos de esticar o nosso coração.
- Tens a certeza? Às vezes os sonhos conduzem ao fracasso...
- Talvez. Mas se os nossos antepassados não tivessem sonhado um mundo melhor para nós, ainda nos vestiríamos com farrapos. O meu pai disse-me uma vez - e a voz tremeu-lhe ao dizê-lo - que, se me empenhasse em edificar um palácio no ar, não perderia o tempo. Que era com certeza aí que deveria estar. Devia apenas esforçar-me o suficiente para construir os alicerces que o sustivessem." 

in O Leitor de Cadáveres, Antonio Garrido, pag. 229

O Leitor de Cadáveres

Autor: Antonio Garrido
Edição: 2013, Fevereiro
Páginas: 504
ISBN: 9789720043870
Editora: Porto Editora

Sinopse:
Um romance fascinante sobre o primeiro médico-legista da História
Na antiga China, só os juízes mais sagazes atingiam o cobiçado título de «leitores de cadáveres», uma elite de legistas encarregados de punir todos os crimes, por mais irresolúveis que parecessem. Cí Song foi o primeiro.
Inspirado numa personagem real, O Leitor de Cadáveres conta a história fascinante de um jovem de origem humilde que, com paixão e determinação, passa de coveiro nos Campos da Morte de Lin’an a discípulo da prestigiada Academia Ming. Aí, invejado pelos seus métodos pioneiros e perseguido pela justiça, desperta a curiosidade do próprio imperador, que o convoca para investigar os crimes atrozes que ameaçam aniquilar a corte imperial.
Um thriller histórico absorvente, minuciosamente documentado, onde a ambição e o ódio andam de mãos dadas com o amor e a morte, na exótica e faustosa China medieval.
Muito mais do que um romance histórico. Muito mais do que um romance de suspense. Muito mais do que um romance de aventuras.

A minha opinião:
Emocionante romance histórico. Uma epopeia empolgante e arrebatadora na antiga e exótica China. Uma complexa trama. Muito bom.
Provocou-me alguma ansiedade, o que diz muito sobre um livro, porque não conseguia parar de o ler. O título e as dimensões auguram um romance que pode ser mórbido ou maçador mas nada disso se verifica. 
Eu tenho dificuldade em encontrar adjectivos/elogios para o descrever que suscitem curiosidade ou interesse em outros de o procurar descobrir por si mesmos, mas vou tentar fazê-lo, inclusive com a ajuda do autor.  Este romance parte de uma premissa que muito me agrada. Inspirado numa personagem real e enquadrado num ambiente que foi alvo de estudo e análise para o contextualizar e assim fiel à realidade. 

O protagonista é fascinante. Um homem da Idade Média Asiática. A sua personalidade que tanto tem de racional como emocional e daí a sua impetuosidade e sagacidade que lhe permitiram resolver casos forenses que deixaram obra numa história apaixonante. 

Mas há todo um enquadramento sucintamente exposto no quotidiano do protagonista que cativa igualmente o leitor. A sociedade, a intriga e o devir da época. Assombra-nos as estritas normas de comportamento familiar onde para além do respeito aos mais velhos havia uma obediência inquestionável; os rituais; a omnipresença dos castigos físicos de uma extrema violência e tantos outros aspetos que surgem neste romance.

Uma característica ficcional do protagonista é a sua estranha doença, desde cedo revelada na trama. Uma patologia real, de insensibilidade à dor, calor e frio.  

Escrita fluída e ritmada numa sucessão de acontecimentos que prendem pelo talento criativo do autor.
Um romance que perdura na memória. Um imenso prazer de ler!

domingo, 5 de maio de 2013

Fragmento

"Já se disse vezes de sobra que não há palavras adequadas para exprimir o horror do que aconteceu em Auschwitz e noutros campos de extermínio, cujos vestígios os nazis em retirada apagaram com mais cuidado. Também não há pensamentos adequados, nem respostas emocionais adequadas, para o visitante que na vida nunca passou por nada de minimamente comparável àquilo. Sente-se compaixão, como é óbvio,  e mágoa, e raiva, mas estes sentimentos parecem tão supérfluos perante a imensidão do sofrimento que este lugar evoca, como lágrimas vertidas num oceano."

in A Vida em Surdina, David Lodge, pag. 293

A vida em surdina


Autor: David Lodge
Edição: 2009, Maio
Páginas: 336
ISBN: 9789892304762
Editora: ASA

Sinopse:
Quando decide pedir a reforma antecipada, o professor universitário Desmond Bates nunca pensou vir a sentir saudades da azáfama das aulas. A verdade é que a monotonia do dia-a-dia não o satisfaz. Para tal contribui também o facto de a carreira da sua mulher, Winifred, ir de vento em popa, reduzindo o papel de Desmond ao de mero acompanhante e dono de casa. Mas o que o aborrece verdadeiramente é a sua crescente perda de audição, fonte constante de atrito doméstico e constrangimento social. Desmond apercebe-se de que, na imaginação das pessoas, a surdez é cómica, enquanto a cegueira é trágica, mas para o surdo é tudo menos uma brincadeira. Contudo, vai ser a sua surdez que o levará a envolver-se, inadvertidamente, com uma jovem cujo comportamento imprevisível e irresponsável ameaça desestabilizar por completo a sua vida.

A minha opinião:
Não sou muito influenciável quando ouço elogiar um livro porque sei do que gosto. Fico reticente. Mas, de quando em quando, tomo a sábia decisão de aceitar a sugestão alheia, mesmo quando nada sei sobre o referido livro, como foi este o caso. 

Desmond Bates escreve entre 1 de Novembro de 2006 e 8 de Março de 2009, uma espécie de diário, notas para uma autobiografia ou faz disso uma simples terapia ocupacional, mas em que revela o que lhe acontece e onde a privação da audição lhe dá sensações, emoções e percepções diferenciadas na sua relação com os outros e na gestão corrente da sua vida. Esta característica, a surdez, humaniza a personagem e o seu acutilante sentido crítico, bem como a ironia, em que todos são visados, dá-lhe uma dimensão trágico-cómica.  

Inserido numa família alargada com um segundo casamento, as peripécias sucedem-se com as dificuldades acrescidas da surdez, onde a Alex Loom, a perturbada personagem fora da teia famíliar agudiza um pouco mais Desmond com a sua tese de doutoramento sobre os bilhetes de suicídio. Todo um cenário, ora arrepiante, ora hilariante, na conjugação de afectos.

Romance equilibrado e profundo, surpreendentemente bem contado para quem como eu nada leu do autor.
Um prazer de ler!

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Os filhos do Zip-zip


Autor: Helena Matos
Edição: 2013, Março
Páginas: 352 + 16 extratextos
ISBN: 9789896264604
Editora: Esfera dos Livros

Sinopse:
Em 1960 existiam em Portugal 31 256 televisores. Dez anos depois, eram dez vezes mais: 387 512 televisores. Uma televisão custava, em média, 5000$00. Um valor significativo à época, mas um bem sentido como necessário por todos. Rodar o botão e esperar que o ecrã sintonizasse era um ritual. O país parava em frente à televisão. Para ver As Conversas em Família de Marcello Caetano, para ver chegar o homem à Lua ou para assistir a um programa que mudou a forma de ver televisão em Portugal. Marcou uma geração e transformou um país. Zip-Zip.

Um programa coapresentado por Carlos Cruz, Raul Soldado e Fialho Gouveia. Pelo Zip-Zip passaram desde Almada Negreiros a um anónimo limpa-chaminés que nunca havia sonhado aparecer no pequeno ecrã. Houve polémica, transgressão, riso e muito divertimento.
Portugal estava em mudança. Salazar caíra da cadeira e cheirava-se a abertura da Primavera Marcelista que durante uns tempos nos permitiu sonhar. Os portugueses trocam as suas aldeias pelos subúrbios de Lisboa que veem nascer prédios a uma velocidade vertiginosa, onde antes existiam campos de cultivo. As crianças passavam mais tempo na rua a brincar do que dentro de portas. Trocavam cromos e pelo Natal recebiam pistolas para brincar aos cowboys, se fossem meninos, e bonecas se fossem meninas. As conversas de café andavam à volta do que se via na televisão ou dos emocionantes jogos de futebol. As compras eram feitas nos primeiros supermercados abertos pelo grupo Pão de Açúcar que despertaram a euforia consumista. As mulheres sonhavam com os modelos que apareciam nas revistas, com os mil produtos e eletrodomésticos que garantiam uma vida doméstica mais fácil e com os cremes que prometiam milagres no rostos e no corpo. A juventude dançava ao som do rock and roll, enquanto os pais ouviam falar pela primeira vez do flagelo da droga.

A minha opinião:
O título do livro inicialmente não me tentou. Não tenho memórias sobre esse programa que dava visibilidade a pessoas comuns e que muitos recordam com nostalgia. 

Duas séries televisivas demonstraram o interesse por um passado recente, mas em convívio social já estabelecíamos paralelismos entre o que fora e o modo de vida atual, para assombro dos nossos filhos  A liberdade de brincar na rua e como o fazíamos. O quotidiano, são memórias que tenho mais presentes e  algumas estão a desvanecer com o tempo. Portanto, foi com gosto que entrei nesta leitura de investigação, bem fundamentada com muitos dados e imagens e algumas estatísticas que fazem toda a diferença para melhor compreensão do muito que mudou.

Retrato de época/ década de setenta (entre 1968 e 1974) da sociedade portuguesa. Demográficamente jovem, em crescimento económico, numa ditadura com Marcelo Caetano, rígido, e que sustentava as guerras em África para manter as colónias. Emigração para países como Alemanha e França e êxodo rural para as periferias de Lisboa e toda uma mudança de hábitos do quotidiano e mentalidades.

Não é necessariamente um livro para se ler compulsivamente. Pode ser leitura de mesa-de-cabeceira, a ler pausadamente por capítulos. Por temas. Se recordar é viver, muitos poderão recordar um tempo que já lá vai e assim melhor os hábitos de leitura.