terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Que Importa a Fúria do Mar

Autor: Ana Margarida de Carvalho
Edição: 2013
Páginas: 240
ISBN: 9789724746395
Editora: Editorial Teorema

Sinopse:
Numa madrugada de 1934, um maço de cartas é lançado de um comboio em andamento por um homem que deixou uma história de amor interrompida e leva uma estilha cravada no coração. Na carruagem, além de Joaquim, viajam os revoltosos do golpe da Marinha Grande, feitos prisioneiros pela Polícia de Salazar, que cumprem a primeira etapa de uma viagem com destino a Cabo Verde, onde inaugurarão o campo de concentração do Tarrafal.

Dessas cartas e da mulher a quem se dirigiam ouvirá falar muitos anos mais tarde Eugénia, a jornalista encarregada de entrevistar um dos últimos sobreviventes desse inferno africano e cuja vida, depois do primeiro encontro com Joaquim, nunca mais será a mesma. Separados pelo tempo, pelo espaço, pelos continentes, pela malária e pelo arame farpado, os destinos de Joaquim e Eugénia tocar-se-ão, apesar de tudo, no pêlo de um gato sem nome que ambos afagam e na estranha cumplicidade com que partilham memórias insólitas, infâncias sombrias e amores decididamente impossíveis.

A minha opinião:
Um romance amargo.  Como amarga pode ser a vida.
Cruel, desumana, como concordarão depois de ler este romance. Um realismo difícil de processar. Um daqueles romances que nos dão que pensar e que normalmente nos fazem sair da nossa zona de conforto e confrontar-nos com um passado recente de fome, doenças, violência e morte para os que eram deportados para o Tarrafal, na ilha de Santiago, arquipélago de Cabo Verde. Em Portugal Continental também grassava a miséria e as crianças muito cedo começavam em duros trabalhos.
Duas personagens, duas gerações, dois tempos históricos distintos. Uma jornalista, Eugénia, interessa-se por um idoso que dá pelo nome de Joaquim,  e procura conhecer a história e o homem. E nessa estranha junção chegam a partilham um gato.

Um comunista que nunca o foi. Um revoltado com uma farpa no peito e um imenso amor expresso por cartas a Luísa. Os devaneios de Eugénia. Ambos enfrentam memórias amargas, numa narrativa saltitante, sem fio condutor que ora me confundia, ora me entristecia durante mais de metade da narrativa, mas sempre admirando quem tão bem consegue escrever em português. Mais do que o conteúdo, apreciei o modo. Brilhante uso das palavras. Lírico e eloquente.

"O mar é a mais líquida, a mais extensa e a mais habitada das metáforas. Transparente, mas parece azul por reflexo do céu. Também pode ser verde, depende das algas transportadas ou do grau de poluição. Tem os abismos do subconsciente, a metamorfose contínua da superfície. Tem grutas e recifes de coral. Destroços de naufrágios, despojos da humanidade a boiar. Às vezes, convulsiona-se, outras, estagna-se. Erguem-se vagas que se elevam a dezoito metros de altura, outras calmarias de tédio e sudação. Em poucos minutos ensaia-se uma tempestade, emissária das fúrias dos deuses, depois tudo se dissipa como uma bruma imponderável. Recomeça sempre, ondulação sem repouso, em cada onda, um reinicio do ciclo eterno, como a cadência de um verso. Tudo transita, tudo recomeça, tudo se dissolve, tudo se funde na ambivalência." 
(pag. 137)

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