domingo, 23 de março de 2014

Jesus Cristo bebia cerveja

Autor: Afonso Cruz
Edição: 2012/ abril
Páginas: 252
ISBN: 9789896721336
Editora: Alfaguara

Sinopse:
Uma pequena aldeia alentejana transforma-se em Jerusalém graças ao amor de uma rapariga pela sua avó, cujo maior desejo é visitar a Terra Santa. Um professor paralelo a si mesmo, uma inglesa que dorme dentro de uma baleia, uma rapariga que lê westerns e crê que a sua mãe foi substituída pela própria Virgem Maria, são algumas das personagens que compõem uma história comovente e irónica sobre a capacidade de transformação do ser humano e sobre as coisas fundamentais da vida: o amor, o sacrifício, e a cerveja.

Jesus Cristo bebia cerveja é o novo e esperado romance de uma das vozes mais fortes e originais da literatura portuguesa actual, a que é impossível ficar indiferente.

A minha opinião:
Até há bem pouco tempo não conhecia Afonso Cruz e as suas obras. A oportunidade surgiu num encontro de leitores que muito o admiravam e fervorosamente recomendavam os seus livros. "Para onde vão os guarda-chuvas" foi o primeiro romance que li e apesar de apreciar a sua prosa fiquei desagradada como o final que me marcou. O intuito seria esse mas fiquei relutante em ler outros livros. Receava que o choque se repetisse e fosse confrontada com outros finais perturbadores. Este livro, teve o mérito de me reconciliar com o autor e permitir novas incursões no seu fantástico mundo criativo e critico, que nos desafia com tantas personagens que parecem irreais ou mera ficção mas que se enquadram perfeitamente no quotidiano ou no real pelos seus valores e princípios. O bom e o mau conjugam-se e convivem numa bem estruturada estória num ambiente surreal mas vibrante de vida e energia.

É gratificante quando para além do aspecto lúdico conseguimos extrair muito mais e esse objectivo é plenamente alcançado com interpretações e questões filosóficas, religiosas, sociais e espirituais mais ou menos subtis ou despercebidas que cada um em cada momento absorve à sua maneira através desta leitura. Muitos excertos/ fragmentos podem ser extraídos mas seria exaustivo fazê-lo. Considerei apenas um que se segue. A minha sugestão é ler e reler esta espécie de tragicomédia de uma mente delirante mas muito assertiva.

"Há dois tipos de Deus: o que nasce da barriga vazia e o que nasce da barriga cheia. O primeiro é vazio, terroso, carnal, necessário para criar uma sensação de amparo e justiça num mundo em que não há nada disso. O segundo é um luxo, fruto de elucubrações. Não precisamos dele mas ainda assim fazemo-lo existir. É feito de argumentos. Nasce de barrigas cheias. No primeiro acreditamos com o corpo, com o fígado, com o estômago, com os rins e com o sangue. No segundo, acreditamos com a cabeça. O primeiro tem mãos, unhas encardidas, barbas e relâmpagos na voz. O segundo não tem forma, nem corpo, nem nome."
(pag. 127)

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