quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Fragmento

"Durante os anos de prisão, a figura de Sabir Al-Muzara ganhou dimensões inesperadas. Apesar da privação de liberdade e da tortura, através de cartas que escrevia na cela e que escapavam à confiscação, Sabir Al-Muzara comunicava com o seu povo para pedir calma e, sobretudo, nada de violência, que só gerava mais violência. Aconselhava-os a não organizarem manifestações na rua para solicitarem a sua libertação porque se infiltravam grupos mal-intencionados que causavam distúrbios; citava-lhes frases célebres de grandes homens e relatava-lhes os seus dias em Ansar 3, abstendo-se de mencionar as torturas e as péssimas condições. As cartas acabaram por ser publicadas ... Com o tempo, essas cartas converteram-se num dos seus livros mais vendidos." 
(pag. 49)

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Há Sempre um Amanhã



Autor: Anita Notaro
Edição: 2012, Abril
Páginas: 468
ISBN: 9789898228857
Editora: Quinta Essência

Sinopse:
Certos momentos da vida mudam-nos para sempre

A maior parte das pessoas consegue lembrar-se de um momento decisivo na sua vida. Uma fração de segundo quando o tempo parou e a vida mudou para sempre. Para Lily Ormond, esse momento chegou ao fim de um dia, quando foi abrir a porta e descobriu que, enquanto estava a esmagar alho e alecrim e assistir a telenovelas, a sua irmã gémea Alison se tinha afogado.
Foi difícil conciliar-se com a perda da única irmã e melhor amiga, e mais ainda tornar-se mãe de Charlie, o filho de Ali com três anos de idade, mas descobrir que a sua irmã gémea levava uma vida secreta havia anos quase destruiu Lily... E assim começa uma viagem relacionada com quatro homens que tinham feito parte de uma vida que ela nem sabia existir. Uma viagem que obriga Lily a reconciliar-se com a memória do pai que nunca se importou realmente com ela, com uma criança que precisa muito de si e com uma irmã que não era o que parecia.

A minha opinião:
Certos momentos da vida mudam-nos para sempre.  É sobre o subtitulo que refletimos depois de ler o primeiro trágico capítulo e enquanto observamos a bela capa que nosso imaginário também compunhamos. Um momento de bem estar e felicidade que ... As reviravoltas da vida que tudo transfiguram. Infelizmente essas são notícias que afetam o nosso dia-a-dia, mas este é um romance luminoso e surpreendente que se torna numa viciante leitura.

Há livros sensacionais que arrebatam completamente desde as primeiras páginas com uma estória bem estrutrada, diálogos consistentes, coerentes e divertidos para personagens credíveis e bem definidas com profundidade suficíente para como leitora as procurar compreender. É o caso deste romance que me fez experienciar uma série de emoções num constante rodopio através do desenvolvimento da personagem príncipal, Lily. Uma personagem cativante nas suas qualidades e defeitos que honestamente assume, o que lhe confere humanidade.

O segredo de Alison que se revela na sua ligação a quatro homens que a desejavam com distintas motivações, sem suspeitas  dos mais próximos (como a sua gémea que amava e protegia), desencadeiam muitas situações delicadas e inesperadas que Lily, insegura e desconfiada terá que lidar. Até no passado poderão estar algumas respostas para as diferentes personalidades e atitudes destas duas irmãs tão semelhantes fisicamente e tão diferentes em tudo o resto.

Um grande, grande, grande prazer de ler. Que bom quando assim é e um romance nos dá essa possibilidade de sentir e pensar enquanto relaxamos em tão boa companhia.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Uma Carta Inesperada

Autor: Barbara Taylor-Bradford
Edição: 2012, Julho
Páginas: 432
ISBN: 9789892319780
Editora: ASA

Sinopse:
Justine Nolan é uma mulher de sucesso com uma carreira artística fulgurante. Mas as memórias que guarda com mais carinho remontam à sua infância, um tempo que recorda como mágico. De visita a casa da mãe, Justine abre inadvertidamente uma carta que vai mudar tudo o que ela julgava saber sobre a sua família e até sobre si própria.
As revelações são tão chocantes que a jovem pede a ajuda e o conforto de Richard, o seu irmão gémeo. Juntos, resolvem descobrir a verdade custe o que custar.

Mas para o fazer, ela terá de viajar até Istambul – a vibrante e sedutora cidade onde se cruzam Ocidente e Oriente. É um lugar com os seus próprios segredos e cujo magnetismo aproxima Justine de um homem fascinante que parece saber mais do que aquilo que está disposto a revelar.
E quando os enigmas ocultos durante décadas pareciam finalmente deslindados, Justine recebe um revelador livro de memórias. No coração deste diário reside a sua verdadeira identidade. Esta é a sua grande oportunidade de sarar as feridas de traições do passado e de abraçar um novo amor e uma nova vida.

A minha opinião:
É curioso que, tal como o livro anterior que li, a acção se dê em Istambul. A carta que Justine abriu e leu tinha sido expedida desta cidade, e trazia uma chocante revelação sobre a avó que julgava falecida há dez anos.

"Istambul. Cidade de contrastes. Europeia. Oriental. Exótica... uma cidade cosmopolita, diversificada em todos os aspetos ..."
(pag. 101)

Uma cidade que conheço e gosto de recordar, com locais e monumentos maravilhosos, que a autora tão bem carateriza neste romance. Através da personagem Anita destaca os sons e os cheiros peculiares de Istambul do que considera o seu refúgio.

Uma capa elegante e atrativa, muito feminina, para um romance com uma narrativa leve e fluída que se lê despreocupadamente e em bom ritmo apesar das 400 páginas. Peca por ser muito redundante.
 
O mistério sobre a Gabri (a avó) é o fio condutor de toda a narrativa e o passado que desvenda através das memórias de Fragmentos de uma Vida é o mais envolvente e viciante desta narrativa.
O romance muito cor-de-rosa entre Justine e Michael não me convenceu. Amor à primeira vista entre personagens que de tão fantásticas parecem irreais. Um convite ao sonho e à fantasia.
 
Uma leitura agradavél mas não muito profunda. Alguma reflexão sobre o período do Holocausto, um tema presente em muitos romances e sobre vários ângulos conforme a participação/ presença das personagens na narrativa.
 
"Toda a gente se emociona a ler sobre o Holocausto, os campos de concentração, o número astronómico de vitimas. Até os soldados bem treinados dos exércitos aliados, americanos, ingleses e franceses, ficaram chocados e devastados quando descobriram esses campos em abril e maio de 1945.
Simplesmente não conseguiam acreditar no que viram... esqueletos ambulantes a cambalear na direção deles. Braços estendidos para os seus salvadores, de pé graças apenas à vontade que tinham de viver, de derrotar os nazis. Os soldados ficaram horrorizados, enfurecidos. O que aconteceu na Alemanha nazi foi o assassínio em massa mais díabólico de toda a história. Lembra-te, morreram seis milhões de pessoas."
(pag.397)

domingo, 19 de agosto de 2012

A Estranha Viagem do Senhor Daldry

Autor: Marc Levy
Edição: 2012, Julho
Páginas: 240
ISBN: 9789896661243
Editora: Contraponto

Sinopse:
Londres, 1950
Alice leva uma existência tranquila entre o seu trabalho como criadora de perfumes, que a apaixona, e o seu grupo de amigos, todos eles artistas nas horas vagas. No entanto, na véspera de Natal, a sua vida vai sofrer um abanão. Durante um passeio a uma feira em Brighton, uma vidente prediz que irá viver uma aventura, em busca de um passado misterioso. Alice não acredita nela, mas também não consegue esquecer as suas palavras; subitamente as suas noites passam a ser povoadas de pesadelos, que lhe parecem tão reais como incompreensíveis.

O seu vizinho, o senhor Daldry, um gentleman excêntrico e celibatário empedernido, convence-a a levar a sério a predição da vidente e a encontrar as seis pessoas que a conduzirão ao seu destino.
De Londres a Istambul, Alice e o senhor Daldry partem na sua estranha viagem…

A minha opinião:
Marc Levy é um autor de referência para mim e os seus livros são quase leitura obrigatória porque me proporcionam uma verdadeira evasão quanto me embrenho nas divertidas e místicas estórias. Os diálogos e as aventuras são vertiginosas, o que me faz pensar que talvez as personagens que cria com um marcado sentido de humor critico e irónico sejam também uma carateristica do autor.

Uma estranha profecia de uma vidente que incute no pensamento de Alice confusos e insistentes pesadelos, que perturbam o normal desenrolar do seu labor como "nariz" ao criar perfumes, levam a uma inusitada demanda proporcionada pelo seu vizinho artista (pintor que se dedica a pintar cruzamentos) a Istambul, para descobrir um passado recalcado nas suas memórias. Nada mais simples mas uma nota de mistério e alguma ternura e irreverência fazem deste romance mais um sucesso. O talento em contar uma estória tendo um enredo tão simples que se resume em poucas palavras mas, com belas descrições de Istambul de exóticos odores e personagens carismáticas que vivenciam uma série de peripécias bem encadeadas, fazem deste romance uma prazeirosa leitura. 

Um prazer de ler!

sábado, 18 de agosto de 2012

Fragmento

"... depois da grande catástrofe, a fúria e o desespero que me atormentavam tornavam-se por vezes tão avassaladores que pensei mesmo em acabar comigo. Mas nunca cheguei a tentar. A cobardia tem sido uma fiel companheira ao longo da minha vida. Tal como agora, então também pensava que a vida se resume a nunca abrir mão. A vida é um frágil ramo suspenso sobre um precipício. E agarro-me a ela enquanto tiver força para isso."           
   (pag.13)



Segredos de Paris

Autor: Luanne Rice
Edição: 2012, Março
Páginas: 344
ISBN: 9789898228826
Editora: Quinta Essência

Sinopse:Lydie McBride sempre viveu a vida ao máximo. Mas quando uma tragédia impensável atinge a sua família tudo aquilo em que acredita se estilhaça. Michael, o seu marido arquiteto, vê a paixão desaparecer dos olhos de Lydie e do seu casamento, e espera que uma temporada de trabalho em Paris os ajude a regenerar o amor que noutros tempos parecera inatacável. Mas a Cidade das Luzes contem segredos e seduções para ambos.
Enquanto Michael se dedica ao seu projeto de design no Louvre — e cai na esfera de ação de uma francesa misteriosa, sedutora —, Lydie encontra inspiração para o seu trabalho como designer de ambientes e enceta uma amizade com duas mulheres muitíssimo diferentes que a irão tornar capaz de encontrar uma nova vida. Haverá lugar para o homem com quem sempre quis partilhar essa vida… se conseguir voltar a encontrá-lo?
Eles pensaram que mudar-se para Paris um ano iria ajudá-los… mas deparam com novos e surpreendentes desafios. Irá o seu amor renascer ou seguirá cada um o seu caminho?

A minha opinião:
Um romance um tanto insípido. Não foi dos melhores que li desta autora e já li alguns. Curiosamente as sinopses frequentemente não espelham o real valor de um romance ou o brilhantismo da narrativa, mas esta, é uma exceção, porque esta sinopse supera-o, sendo mais apelativa e envolvente.

No centro das estórias de Luanne Rice estão normalmente relações afetivas nas suas muitas e complexas formas. Relações maritais, relações de amizade, relações familiares, relações parentais e relações laborais, são também objeto deste romance. E a natureza também costuma estar presente mas não neste.

Falta carisma às personagens e envolvência entre elas que lhes transmita autenticidade. Parece-me um tanto estranha a relação de Lydie e Michael, depois de de uma tragédia, uma mudança para Paris e uma descoberta amarga como desapaixonarem-se. O assumir de que não se gosta um do outro ou que se deixou de sofrer pelo outro e não se importam de ficar sós, como até o preferem, é algo que não acontece de um dia para o outro mas acontece e provoca emoções que deveriam ser transmitidas ao leitor. Não acontece. A atração de Michael e envolvimento com Anne, foi árido e de igual modo não foi percepcionado como leitora.
A amizade de Lydie e Patrice pareceu-me superficial sem a intensidade e intimidade que sentiam duas americanas que se encontram em Paris porque também aqui falta encanto e empatia que sugira o interesse mútuo na partilha e no convívio.
O tema da emigração ilegal com a empregada Kelly de Patrice é a abordagem com mais interesse neste romance mas não gostei do desfecho apesar de verossímel.

Definitivamente este romance não me convenceu e não o recomendo.

domingo, 12 de agosto de 2012

O Fio do Destino

Autor: Laura Schroff e Alex Tresniowski
Edição: 2012, Junho
Páginas: 240
ISBN: 9789892319469
Editora: ASA

Sinopse:
E foi nesse momento que a vida de Laura mudou para sempre. Com uma carreira de sucesso no USA Today - o maior jornal americano - ela era uma mulher privilegiada, mas solitária. O seu passado encerrava segredos dolorosos que a impediam de se sentir realizada e feliz. Quando viu Maurice pela primeira vez, Laura não poderia imaginar quão importante viria a ser na vida daquele menino. Maurice tinha apenas seis anos, mas a sua história era já devastadora.
Com o corpo e o espírito marcados por anos de abandono e fome, o único mundo que conhecia era o da violência e do caos. Com a sua tenra idade, ele já sabia o suficiente para temer pela própria vida. Não rezava, não sabia como, mas pensava: Por favor, não me deixem morrer. E de certo modo, esta era a sua pequena oração. Contra todas as expectativas, Laura seria a resposta à sua prece. Com pequenos gestos de bondade, ela permitiu-lhe ter fé no futuro pela primeira vez. E Maurice retribuiu, ajudando-a a descobrir-se a si própria e à sua capacidade de amar. A amizade entre ambos transformou e enriqueceu as suas vidas. Laura e Maurice são até hoje a prova de que tudo é possível quando abrimos o coração aos outros.

A minha opinião:

"Sei que O Fio do Destino é a respeito de uma amizade invulgar entre duas pessoas diferentes, mas penso que é a respeito de muito mais do que isso. É a respeito de uma mulher que ansiava um filho e de um filho que ansiava uma mãe. Essa ânsia não tinha nada a ver com cordões umbilicais ou com ADN. Tinha a ver com duas pessoas que precisavam uma da outra e que estavam destinadas a encontrar-se na esquina da 56th street com a Broadway. Todas as segundas-feiras, essa mãe aprendeu a conhecer o seu filho, e esse filho aprendeu a conhecer a sua mãe.
E nessas segundas-feiras os corações dos dois foram cosidos um ao outro por um fio invisível. 
Amo-te, Mãe
Maurice  Mazyck"
pag. 234
 
Este é um romance terno e comovente mas ao contrário do que eu receava nada lamechas ou um apelo ao sentimentalismo barato ou à caridadezinha. Este é um romance sobre solidariedade, risco, confiança que se traduziu num profunda e eterna amizade. Em confiar nos nossos instintos. Quantas e quantas vezes os nossos sentidos nos dizem para fazer algo e a nossa mente contraria e nos alerta para os riscos e perigos que podem daí advir. Quantas e quantas oportunidades perdidas de fazer a diferença.
 
A sinopse não me convenceu mas quando comecei a ler este romance mudei de opinião. Era um relato seguro e nada sentimentalista. Objetivo e factual. E não parei de o ler porque esta é uma história que deveria ser contada e deve ser lida. São histórias assim que nos dão ânimo e esperança num futuro melhor.
E não se trata de uma história mas de três histórias porque apesar de narrada pela autora é a sua história de vida antes de conhecer o Maurice, a história de vida do Maurice antes de conhecer a Laurie e a história de ambos depois de travarem conhecimento.
 
"No entanto, acreditava então, como acredito agora, que há no universo qualquer coisa que junta as pessoas que precisam umas das outras. Há qualquer coisa que ajuda duas pessoas completamente diferentes a, de alguma maneira a forjarem uma ligação. Talvez seja precisamente aquilo que mais nos atormente que nos faz estender às mãos para aqueles que julgamos capazes de nos proporcionar algum alívio. Talvez tivesse sido o meu passado que me fizera voltar para trás e encontrar o Maurice naquele dia. E talvez, sim, talvez esse fio invisivel do destino nos voltasse a juntar."
pag. 33
 
Um romance que não nos deixa indiferentes. Mas, trata-se de uma história verídica e repito-me, que dever ser lida. Afinal, histórias reais com finais felizes são importantes para equilibrar a nossa fé no ser humano e num futuro melhor e mais justo. Infelizmente os meios de comunicação não valorizam histórias assim, por isso temos de procurá-las ou esperar que elas nos encontrem.
"Os amigos não vem em caixas azuis com bonitos laços de cetim brancos; limitam-se a aparecer e a mudar a nossa vida", mas os livros veem. Porque não oferecer um livro como este a quem mais precisa de o ler? Eu vou fazer a minha parte e oferecer este excelente livro a algumas amigas que precisam de o ler.
 
Um prazer de ler!

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Ouro do Inferno



Autor: Eric Frattini 
Edição: 2011
Páginas: 448
ISBN: 978-972-0-04341-2
Editora: Porto Editora

Sinopse:
Berlim, 1945: entre os escombros de uma capital arrasada, Hitler enfrenta as suas últimas horas de vida.

Ou será que não?

Numa Europa devastada pela segunda guerra mundial, o jovem seminarista August Lienart vê-se implicado numa operação de grande escala: uma organização enigmática tenta encontrar uma via de escape para os nazis e lançar os alicerces para a construção do Quarto Reich.

Quem estará por trás da sinistra organização secreta em cujas teias se enreda Lienart? Estará a Igreja Católica envolvida na fuga dos criminosos de guerra?

Uma incrível e fascinante intriga, plena de suspense e mistério, até à última página.

A minha opinião:
Depois de ler O Labirinto de Água não podia deixar de ler este novo romance deste autor. Fiquei cativa da sua prodigiosa capacidade de criar uma narrativa fascinante e elaborada, com muitas personagens históricas e com  base em factos reais.  Crimes, intriga, espionagem, acção, romance neste thriller histórico que quando comecei a ler se tornou imparável.
Segundo o próprio autor, este livro «tem um terço de fantasia, um terço de realidade e um terço de recriação da realidade».

Controverso porque mais uma vez o foco é sobre a igreja católica.  Reencontro com a personagem August Lienart, que no anterior livro era o maléfico cardeal  do Vaticano com assasinos a cumprir os seus designios e neste é uma personagem que vai crescendo na trama enquanto "eleito" para o renascimento de um quarto Reisch.
O papel da Igreja Católica perante a organização Odessa, criando uma rota de evasão para os princípais dirigentes nazis, designado como o Corredor do Vaticano, em troca de uma boa quantia de ouro. Ou por convição.

"Lienart não compreendia como aqueles SS, pessoas normais, cidadãos vulgares muitos deles até com um elevado nível intelectual, se tinham entregado à causa de executar pessoas sem o mais pequeno indício de humanidade, em nome de uma ideologia, da pureza de uma raça."  
(pag. 90)
É importante ler as Notas do Autor no fim do livro para quem não sabe o bastante ou não consegue compreender a História. 

Outro aspeto desta narrativa é o papel da Suiça e dos seus banqueiros, os seus industriais e as suas indústrias que abasteceram Hitler com milhões, o que permitiu aos alemães adquirir matérias-primas e manter a máquina bélica. Também banqueiros, negociantes de arte, advogados ou joalheiros ocultaram e branquearam o ouro enviado pela SS.

"Amigo Mason, não esqueça o que lhe vou dizer. A nossa geração não se lamentará tanto dos crimes dos preversos como do estremecedor silêncio dos homens bons. Na sua Suiça neutral foram inclusivamente perseguidos aqueles bons que tentaram gritar, pelo que o senhor e eu fizemos parte do grupo dos silenciosos que se converteram em aliados do mal, em testemunhas silenciosas do diabo representado por Hitler e pelos seus. Estou certo de que esse pensamento nos irá acompanhar até ao túmulo - disse.
Estas talvez fossem palavras proféticas para muitos homens de toda uma geração."
(pag. 368)

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Os Descendentes

Autor: Kaui Hart Hemmings
Edição: 2012, Janeiro
Páginas:
304
ISBN:
9789722347099
Editora: Presença

Sinopse:

Matthew King é advogado e um dos homens mais ricos do Havai, mas a sua vida muda por completo, quando a mulher fica em coma depois de um acidente. Esta situação acarreta novas e difíceis responsabilidades para King, entre as quais aprender a lidar com duas filhas nada fáceis. Entretanto, Matthew é surpreendido por uma revelação chocante...
Kaui Hart Hemmings, a autora, ambienta este livro sobre relações familiares pouco convencionais no exotismo expressionista do cenário e tira partido da contradição entre o drama familiar e um omnipresente sentido de humor.

A minha opinião:
A autora diverte-se ao partilhar as percepções e pensamentos da personagem principal com o leitor como se este mantivesse um diálgo sigiloso, ou melhor, partilhasse confidências  sobre aquela fase perturbadora da sua vida. Torna-nos cúmplices do humor ou sarcasmo de Matt quando avalia passado e presente e é confrontado com situações difíceis, inesperadas e inusitadas em que tem que decidir e/ ou tomar atitudes que afetam a familia e o futuro. Mas, apesar da carga dramática deste romance, é surpreendente como nos faz refletir sobre o absurdo e o ridiculo de tantos episódios que nos passam despercebidos em momentos críticos.
Depois de ler este romance é fácil de perceber a adaptação do mesmo ao cinema e a escolha de George Clooney para protagonista. Anseio por ver o filme e confirmar o quão bem se ajustam ao meu imaginário.

Distanciado emocionalmente da familia que ama e dedicado à carreira, Matt é obrigado a reorganizar a sua vida e prioridades, aproximando-se das filhas adolescentes, a rebelde e direta Scottie de dez anos, e a Alex de dezassete,  internada num colégio interno para escapar a um problema de abuso de drogas. Alex faz-se acompanhar como apoio, de Sid, um amigo que também ele está a superar uma perda e uma desilusão.

Irreverente e tocante mas ainda ainda assim divertido e leve, é um romance que não desilude.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Fragmento


"Alguém tem de contar essas histórias. Quando se travam e ganham ou perdem batalhas, quando os piratas descobrem os seus tesouros e os dragões comem os inimigos com chá Lapsang Souchong ao pequeno almoço, tem de haver alguém para contar os fragmentos das narrativas que ali se sobrepõem. Isso é mágico. Elas ficam nos leitores, cada um ouve-as à sua maneira, e influenciam-nos de maneiras imprevisíveis. Da mais banal à mais profunda. Ao contares uma fábula, esta pode ficar presa à alma de alguém, tornando-se parte do seu sangue, da sua personalidade e determinação. Essa fábula põe as pessoas em movimento e guia-as, e quem sabe o que as levará a fazer. Tudo por causa das tuas palavras. É esse o teu papel, o teu dom. (...) - No fim de contas, há muitas espécies de magia."
(pag. 451)

O Circo dos Sonhos

Autor: Erin Morgenstern
Edição: 2012, Abril
Páginas: 464
ISBN: 9789722634267
Editora: Civilização


Sinopse:
Um misterioso circo itinerante chega sem aviso e sem ser precedido por anúncios ou publicidade. Um dia, simplesmente aparece. No interior das tendas de lona às listas pretas e brancas vive-se uma experiência absolutamente única e avassaladora. Chama-se Le Cirque des Rêves (O Circo dos Sonhos)e só está aberto à noite.
Mas nos bastidores vive-se uma competição feroz - um duelo entre dois jovens mágicos, Celia e Marco, que foram treinados desde crianças exclusivamente para este fim pelos seus caprichosos mestres. Sem o saberem, este é um jogo onde apenas um pode sobreviver, e o circo não é mais do que o palco de uma incrível batalha de imaginação e determinação. Apesar de tudo, e sem o conseguirem evitar, Celia e Marco mergulham de cabeça no amor - um amor profundo e mágico que faz as luzes tremerem e a divisão aquecer sempre que se aproximam um do outro.
Amor verdadeiro ou não, o jogo tem de continuar e o destino de todos os envolvidos, desde os extraordinários artistas do circo até aos seus mentores, está em causa, assente num equilíbrio tão instável quanto o dos corajosos acrobatas lá no alto.
Escrito numa prosa rica e sedutora, este romance arrebatador é uma dádiva para os sentidos e para o coração. 

A minha opinião:
É estonteante, maravilhoso e insólito. 
Nunca fui apreciadora de circo mas admiro as artes circenses, (talento e trabalho árduo dão espectáculos impressionantes)  e este romance é como uma obra de arte, cheia de estilo e classe. Uma obra para se apreciar gradualmente e absorver calmamente. Uma narrativa marcada por muitas descrições que formam um quadro completo que o leitor visualiza através da escrita.

Estava também relutante porque fantasia não é o meu género literário preferido, mas este livro transcende-o e rendi-me rapidamente ao talento da autora ao conceber e concretizar esta história. Transcrevo a afirmação da personagem principal, Celia, para o circo mas que se aplica a este livro como "um encanto, um conforto e um mistério".  

Celia e Marco são duas personagens involutáriamente envolvidas num desafio pelos seus mestres/ professores, em que as suas capacidades e estudos os levem a superar-se ao outro. O ponto de encontro era o Circo dos Sonhos. Um circo mágico a preto e branco, com muitas outras personagens carismáticas com destaque e protagonismo neste romance. O desfecho, é o toque final da autora  que "brinca" com as palavras que me inebriaram como leitora.

Um romance a não perder. Mágico. Um grande, grande prazer de ler.

"- As pessoas veem aquilo querem ver. E, na maior parte dos casos, aquilo que lhes dizem para ver."
(pag.35)